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Aplicativos de relacionamento e os efeitos prejudiciais à saúde mental

Pesquisa mostra que estes sites cresceram 215% na pandemia, mas psicóloga faz alerta sobre como eles podem afetar a autoestima e sugere um uso saudável

G1 / FRANCIELLY KODAMA, GSHOW


Aplicativos de relacionamento e os efeitos prejudiciais à saúde mental — Foto: Pexels

Orientação sexual, gostos musicais, localização, religião, visão política, hobbies: os aplicativos de relacionamento permitem que seus usuários montem a “pessoa dos sonhos' através de dezenas de filtros disponíveis. Como um cardápio de restaurante, as pessoas passam por infinitas opções de desconhecidos até, finalmente, ter seu match (par, em uma tradução livre).

É assim, formando uma comunidade com milhões e milhões de usuários, que os aplicativos de relacionamento mostraram um crescimento de 215% durante o segundo ano da pandemia , de acordo com a Match Group, empresa detentora de algumas das plataformas mais populares.

Mas isso significa que estamos nos conectando mais e melhor? Ou que estamos mais abertos ao amor? Será que sabemos criar vínculos ou apenas aumentar uma rede de contatinhos? E, afinal, como ter esse banquete de pessoas ao alcance de uma troca de mensagens afeta o nosso psicológico?

‘Vivemos a era do desamor?’

É com esse questionamento que a escritora brasileira Luciana Borges inicia o livro "Depois de Tudo, Queime", uma coletânea de dates fracassados baseados ou livremente inspirados nas próprias experiências pelas terras populosas dos aplicativos de relacionamento. Ao gshow, ela defende que ferramentas como essas tornaram as conexões mais efêmeras , principalmente no casos das mulheres hétero.

“A gente não consegue mais se vincular a ninguém. [...] Chegou em um ponto em que nós, mulheres, corremos um grande risco de sofrer um burnout amoroso, de busca por relacionamento.'

Mas a psicóloga Bianca Mayumi tenta analisar por outro viés. Ela não acredita que desaprendemos a nos relacionar, mas, sim, que “estamos constantemente mudando a forma de nos relacionarmos, e nós ganhamos e perdemos com isso.'

A questão, segundo ela, não é fugir destes ambientes digitais, mas entender os próprios limites e se atentar para não ceder à pressão de um coletivo que impõe que mulher solteira é sinônimo de fracassada ou mal-amada e, assim, “se envolver com pessoas que não compartilham dos mesmos valores ou que tenha comportamentos disfuncionais'.

“Esses aplicativos de relacionamentos vieram para suprir ou atualizar algumas das necessidades humanas. Fazendo um paralelo com a nossa vida offline, podemos ver o quanto buscamos também espaços de pertencimento por meio de nossos valores', exemplifica.

Na era da tecnologia, a velocidade com a qual tudo acontece também impacta no modo como queremos as coisas: queremos tudo agora e, daqui a pouco, já não as queremos mais.

E como fica a nossa saúde mental com essa instabilidade de interesses?

Considerando que açúcares e atividades físicas são fontes de prazer que estimulam os neurotransmissores, uma atividade cerebral parecida acontece quando estamos apaixonados.

“Nós nos acostumamos a receber descargas hormonais de prazer, então quando há a interrupção dessa descarga, nosso organismo sofre com a sua falta. É como se ele estivesse acostumado a sempre receber aquela dosagem de açúcar e, repentinamente, ela fosse cortada', explica a psicóloga.

Assim, o nosso sistema de recompensas é afetado. Saindo do campo da ciência, isso quer dizer que a pessoa é arrebatada por um sentimento de frustração e decepção amorosa que pode levar a quadros de ansiedade, baixa autoestima e até depressão.

Para Luciana, as mulheres ainda são as que mais sofrem essa rejeição e o famoso ghosting (derivada da palavra ghost, fantasma em inglês). O fenômeno, uma das maiores demonstrações de irresponsabilidade afetiva, acontece quando alguém simplesmente deixa de responder às suas mensagens e some sem dar explicações.

“Eu era muito reticente a deixar as pessoas falando sozinha, mas chega uma hora que você é vencida pela batalha: as pessoas te deixam tanto falando sozinha, que você deixa o outro falando sozinho e todo mundo se deixa falando sozinho.'

A escritora, que hoje mora em Barcelona, na Espanha, afirma que os aplicativos oferecem, sim, suas vantagens, como conhecer pessoas que, talvez, não frequentem os mesmos lugares que você. Mas a quê custo?

Passada a ansiedade de encontrar uma pessoa interessante nos aplicativos, o mesmo sentimento volta acompanhado de uma série de questionamentos ao marcar o primeiro encontro: será que a pessoa vai gostar de mim? Será que vai me achar interessante? Como devo me comportar?

Acontece que, na maioria das vezes, quem faz esse “interrogatório' são as mulheres. Preocupadas com a autoimagem, elas se arrumam por fora e se podam por dentro para mostrarem suas “melhores versões' para, talvez, agradar uma pessoa que ela nunca viu na vida – e talvez não veja novamente.

“Esses aplicativos são o grande ponto em que a gente vê os choques geracionais de gênero. E não é que o homem seja, necessariamente, uma pessoa ruim, mas ele está preso em [comportamentos de] 10 anos atrás.'

Daniel Clemente também é usuário dos aplicativos de namoro e avalia, de forma geral, como uma experiência positiva : “As pessoas estão mais abertas a se relacionarem, a paquera é mais direta e focada no objetivo de cada um. Eu falo por mim: estou sempre bem aberto, mas nem sempre rola o interesse depois do primeiro contato e a conversa morre.'

Mas o videografista de 30 anos não descarta que há, de fato, muito espaço para frustrações e é uma, entre milhões, que já teve a autoestima abalada. “Estamos, praticamente, em um menu digital de seres humanos que, por vezes, só o que importa é o interesse físico', opina.

‘Uma loba como eu não é para novatos’

Este é um dos trechos sobre amor-próprio no sucesso mais recente de Shakira, ‘BZRP Music Sessions #53’. Meses antes, Miley Cyrus também já havia cantado algo semelhante em 'Flowers': “comecei a chorar, mas depois lembrei que eu [...] posso me amar melhor do que você pode.'

Tanto Bianca quanto Luciana defendem que ter autoconhecimento é fundamental antes de embarcar na onda dos sites de relacionamento , além de ser uma ferramenta que beneficia a própria pessoa e com quem ela se conecta. A psicóloga afirma que “para nos comunicarmos assertivamente com o outro, precisamos primeiro nos comunicarmos conosco.'

“Na nossa sociedade, aprendemos, principalmente como mulheres, a sempre entendermos o que é melhor para o outro e que estarmos sozinha é algo que diminui o nosso valor. Então, antes mesmo de nos conhecermos, já nos tornamos disponíveis para entender e conhecer o outro. Dessa forma, podemos não aprender o que gostamos ou não, o que faz sentido para nós e o que não faz', alerta.

E é tendo autoconhecimento que evitamos cair em ciladas amorosas. Afinal, é assim que você entende que determinada situação ou indivíduo está desrespeitando seu limite e que aquilo não faz bem para você: “É muito mais fácil ter a mulher em uma posição infantilizada, com quem alguém dizendo quem ela tem que querer, quem ela ter que ser, como ela tem que parecer', opina Luciana.

O recado também vale para os homens: como psicóloga, Mayumi percebe que eles têm mais dificuldades para identificar suas emoções e comunicar aos outros o que sentem, “assim como não aprendem a se colocar como rede de apoio emocional para os outros.'

E ao mesmo tempo em que disparou o acesso aos aplicativos de relacionamento, em 2021, o IBGE mostrou um aumento de 16,8% no número de divórcios em comparação ao ano anterior . Muitos podem enxergar como o fim do amor, mas nossas entrevistadas apresentam um outro olhar que retoma a importância do autoconhecimento.

Diante destes dados, Luciana sugere que o período de quarentena fez as pessoas olharem mais para o que estava acontecendo dentro das relações e o que extrapolava os limites, o que antes talvez não fosse percebido pelas horas que passavam fora de casa. Bianca completa dizendo que a baixa tolerância a desentendimentos também reforçou esse cenário de separações na pandemia.

Quantos primeiros encontros você já teve na vida?

Enquanto você pensa nessa resposta, que tal repensar algumas destas pontuações feitas por Luciana e Bianca para levar de forma mais leve as conexões criadas através destes aplicativos de relacionamento? Aqui vão as dicas e alertas ao marcar um date!

Segurança em primeiro lugar! Nunca marque um encontro em casa logo de cara: escolha um lugar público e comunique amigos mais próximos sobre o date: quem é a pessoa, fotos, localização.Fique sempre de olho no seu copo! Golpes praticados com uso de drogas como o "boa noite, Cinderela" ainda são muito comuns. Outros crimes conhecidos no mundo dos aplicativos são os perfis falsos criados para roubar dinheiro das vítimas.“Amor envolve escolha, cuidado, atenção, respeito, comunicação e tantas outras coisas que não violência e negligência', destaca Bianca. Portanto, qualquer comportamento oposto acende um sinal vermelho: se afeta sua liberdade, sua privacidade ou viola sua integridade mental ou física.Durante o encontro, perceba se a pessoa está interessado na sua história, em saber sua opinião, seus gostos: o desinteresse é um grande sinal de alerta e que detecta a maturidade emocional.Mas não é preciso esperar por um red flag, ao menor sinal de que algo conflita com seus valores, interesses e com o que você está buscando em uma relação já um sinal amarelo de que você possa se decepcionar. “Que mundo essa pessoa vai trazer?' Era esse pensamento curioso que movia Luciana até seus dates, muito mais do que uma ideia romantizada. Ou seja, encarar estes momentos com os pés no chão pode te poupar de frustrações e jogar menos expectativa em cima de algo que ainda não aconteceu.Saiba diferenciar julgamento de observação, pontua Bianca. Ao invés de se perguntar “será que eu sou o problema?', tente entender quais são as observações e os fatos inquestionáveis que ocorreram: “essa estratégia poderá contribuir para uma análise mais justa.'Fuja de pessoas que fazem joguinhos mentais e podem afetar o seu emocional.