
Anderson Moraes Moreira
A vingança do PIX
O PIX nasceu técnico, não ideológico
JORNAL O PRECURSOR / ANDERSON MORAES MOREIRA
O PIX não é apenas um meio de pagamento. Ele se tornou, em pouco mais de quatro anos, um símbolo de autonomia econômica para milhões de brasileiros. Criado pelo Banco Central do Brasil e lançado oficialmente em novembro de 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, o sistema revolucionou a forma como o dinheiro circula no país — especialmente entre os mais pobres.
Antes do PIX, quem dependia de dinheiro vivo vivia refém de filas, tarifas e horários bancários. O PIX rompeu essa lógica. Democratizou o acesso ao sistema financeiro, eliminou intermediários, reduziu custos e devolveu tempo e dignidade ao cidadão comum. O dinheiro passou a circular com rapidez, transparência e eficiência — do vendedor ambulante ao pequeno comerciante, do trabalhador informal à dona de casa.
É justamente aí que começa o “incômodo”.
A insistência em criar uma taxação, fiscalização excessiva e controle do PIX soa, para muitos, menos como uma medida técnica e mais como uma reação política. Uma espécie de ajuste de contas tardio. Uma vingança silenciosa contra algo que deu certo — e que deu certo fora do atual campo ideológico do poder.
O PIX nasceu técnico, não ideológico. Mas foi apropriado politicamente pelo povo. E isso incomoda.
A vingança do PIX não é contra um sistema. É contra a liberdade silenciosa que ele proporcionou.
Quando o Estado passa a olhar um instrumento que apenas facilita a circulação do dinheiro e beneficia grandemente o povo mais humilde, seja no mercado, no posto de gasolina, na conta de luz ou de água ele não está tentando criar uma fiscalização, está entrando na “casa da opressão”. Está criando insegurança emocional e econômica. O brasileiro começa a se perguntar se voltar usar o dinheiro em espécie não volta a ser uma alternativa de diminuir o fardo de uma possível taxação.
Existe algo que o atual governo parece não conseguir entender — ou talvez entenda, mas, diante da necessidade de arrecadação para evitar problemas de gestão e questionamentos administrativos, simplesmente ignora. Taxar ou ameaçar o PIX não atinge grandes fortunas. Não alcança offshores. Não toca nas estruturas sofisticadas de evasão fiscal. Atinge, única e exclusivamente, o povo mais simples. Atinge quem compra pão, paga aluguel, abastece o carro para trabalhar. Atinge quem, finalmente, teve acesso a um sistema simples, rápido e gratuito.
Por isso, a sensação que fica não é apenas a de uma má política econômica, mas a de um claro revanchismo institucional — ou, sem rodeios, de vingança. Como se fosse necessário desidratar, enfraquecer ou punir uma inovação criada em outro governo, ainda que essa inovação tenha sido amplamente abraçada por toda a sociedade, se é que isso ainda importa.
A vingança do PIX não é contra um sistema. É contra a liberdade silenciosa que ele proporcionou.
E quando um governo passa a se incomodar com a autonomia do cidadão sobre o próprio dinheiro, o problema já não é técnico. É político. E revela uma lógica de controle típica de regimes autoritários.
O Pix foi criado pelo Banco Central do Brasil em 2018 durante o governo Michel Temer e foi implantado oficialmente em 16 de novembro de 2020 no governo Jair Bolsonaro.
