Riqueza, mérito e regras iguais

Quando alguns parecem vencer por atalhos obscuros, a confiança coletiva se desgasta. Para que o esforço honesto valha a pena, é essencial que a lei alcance todos igualmente

CORREIO DO ESTADO / DA REDAçãO


Riqueza, mérito e regras iguais

É possível enriquecer facilmente e rapidamente? A resposta objetiva é sim. A história está repleta de exemplos de fortunas construídas em pouco tempo. O ponto decisivo, porém, está no caminho escolhido.

Quando se fala em meios lícitos, transparentes e compatíveis com a legalidade, as possibilidades de enriquecimento veloz diminuem drasticamente. Tornam-se raras, quase excepcionais, muitas vezes comparáveis a um golpe de sorte.

Ganhar na loteria, por exemplo, é uma dessas hipóteses. Em tese, qualquer pessoa pode acertar os números e mudar de vida da noite para o dia.

Na prática, as chances são mínimas, quase remotas. Ainda assim, milhões insistem em apostar, movidos pela esperança legítima de um futuro melhor. Outra possibilidade clássica é receber uma herança, circunstância que independe de esforço próprio e costuma resultar da trajetória patrimonial de gerações anteriores.

Existe ainda um caminho mais difícil, mais lento e, ao mesmo tempo, mais sólido: investir em educação, desenvolver competências, construir carreira, formar boas relações profissionais e colher resultados ao longo do tempo. Não há glamour instantâneo nessa rota, mas há consistência.

O enriquecimento decorrente do trabalho, do talento e da disciplina pode demorar, porém tende a ser mais sustentável e menos sujeito a questionamentos.

É justamente por isso que saltos patrimoniais abruptos despertam atenção pública, sobretudo quando envolvem personagens ligados a setores estratégicos e cifras milionárias.

Nesta edição, mostramos o caso de um advogado que, em período inferior a dez anos, apresentou evolução patrimonial exponencial e que, em menos de um ano, recebeu mais de R$ 20 milhões de uma multinacional. A explicação formal é o pagamento de honorários advocatícios.

A justificativa, por si só, não encerra a discussão. Colegas de profissão ouvidos pela reportagem questionam se os valores são compatíveis com a realidade atual do mercado jurídico de Mato Grosso do Sul. Não se trata de condenar previamente ninguém, tampouco de demonizar o sucesso profissional.

O debate legítimo está em saber se os números apresentados guardam relação com os serviços prestados, com a complexidade das causas e com os parâmetros normalmente praticados.

Também por isso a atuação da Polícia Federal se mostra necessária. Sempre que há indícios de incompatibilidade patrimonial, movimentações atípicas ou dúvidas razoáveis sobre a origem dos recursos, cabe ao Estado investigar.

Em uma sociedade democrática, fiscalização não é perseguição; é instrumento de equilíbrio institucional.

Se a vida fosse apenas um jogo de sorte, talvez bastasse aceitar resultados improváveis sem questionamento. Mas a vida em comunidade exige algo maior: regras claras e iguais para todos.

Quando alguns parecem vencer por atalhos obscuros, a confiança coletiva se desgasta. Para que o esforço honesto continue valendo a pena, é essencial que a lei alcance todos da mesma forma. É assim que deve ser.